Lugar e não lugar

Vi a casinha definhar pouco a pouco. Lembro-me de minha última noite em seus cômodos na qual, inspirada por melodramas hollywoodianos, acariciei as paredes e verti lágrimas. A casa, localizada em uma rua comercial de Juazeiro, cidade do interior baiano, tinha me acolhido desde o nascimento, quando, ainda implume, fui deixada pelos meus pais biológicos.

O som de Novos Baianos cingia nossas tardes: mamãe me abarca em seus braços finos e pálidos e rodopia e eu gargalho. Meu pai, então, canta uma música de algum filme do Mazzaropi, nos ensina, e nós cantamos como se fosse um hino.

A casa está apinhada de gente: dindinha, tia Euzinha, minha tia Ana Neide, e tia Tatá. Alguns rostos que já não recordo; nomes que me fogem. Há alegria e calor. Estamos na cozinha, próximos ao fogão. Em homenagem à minha mãe, tocam músicas de Núbia Lafayette. Meu pai, trajando uma camisa velha e chinelos de couro cansados da guerra, traga uma cerveja Skol, enquanto balança a cabeça, escutando a canção. Pedem que Sarah e eu dancemos e nós, como se fôssemos Fred Astaire e Ginger Rogers, o fazemos.

Eles brigaram feio. A casa branca, aquela que nasci e cresci, seria utilizada para pagar as dívidas da família de meu pai. A casa nunca nos pertencera, embora fosse nossa casa. Eu conhecia aquele lugar com todos meus sentidos: ainda me lembro das cores que oscilavam a depender do cômodo em que se encontrasse (salmão na sala de estar; rosa em meu quarto; branco na cozinha), da textura das paredes sob meus dedos, da miríade de cheiros oriundos da cozinha de mãe Lili e da rua Conselheiro Saraiva, e dos sons de violão, da voz rouca e afinada de meu pai, do som melífero de Núbia Lafayette, dos acordes dos Novos Baianos. Minha mãe não quer deixar a casa, mas meu pai a convence e, então, os seguimos.

Hoje, fizemos desta casa nossa lar, mas há dias que me recordo daquela casa branca, número 25, localizada na rua Conselheiro Saraiva, e um sorriso desponta em minha boca.

Lady Bird

MV5BMjg1NDY0NDYzMV5BMl5BanBnXkFtZTgwNzIwMTEwNDI@._V1_UX182_CR0,0,182,268_AL_

— Você claramente ama Sacramento —  diz a freira, hábito cinza e cara engelhada, enquanto põe alguns papéis sobre a mesa. Lady Bird ergue a cabeça, confusa, e questiona a declaração da mulher.

— Bem — diz a freira –, você escreve sobre a cidade com tanto carinho e cuidado…

— Eu estava apenas descrevendo — justifica a garota, dando de ombros, e encara a unha mal pintada.

— Bom, pareceu amor — comenta a religiosa.

— Claro, acho que presto atenção — responde Lady Bird.

— Não acha que talvez sejam a mesma coisa? — questiona a freira e continua: — Amor e atenção?

No introito do filme, a garota, propensa ao drama, se joga de um carro em movimento, quando confessa à mãe a ânsia de viver alguma coisa, não ali, em Sacramento, mas na Costa Leste. Estuda em um colégio católico, e, em razão das escassas economias da família e da demissão iminente do pai, Lady Bird só frequenta aquele instituto à custa de muitos sacrifícios dos pais. Em oposição às ambições da garota, os progenitores não podem bancar outra faculdade senão aquelas localizadas no estado em que Lady Bird nascera e crescera, e onde, também, sentia-se terrivelmente limitada.

A personagem principal do primeiro filme dirigido por Greta Gerwig (que, em 2012, encarnou a protagonista do filme de Baumbach, Frances Ha) é dramática e egoísta; é, em virtude de tais idiossincrasias, genuína e humana. Penso que a garota adotou o pseudônimo Lady Bird como uma forma de mostrar domínio sobre si e sobre seu próprio destino, e para, como pássaros, alçar altos voos.

Lady Bird é um filme sobre uma garota que, como muitas outras, se sente deslocada na cidade em que vive, acreditando que seus inúmeros sonhos não encontram espaço ali, que a mãe não a compreende, ainda que reconheça que esta a ama. Na cena em que as duas saem para comprar a roupa que a garota usaria no baile de formatura, questiona se a mãe gosta dela. Lady Bird sabe que é amada, mas, ainda assim, sente-se desajustada no meio em que vive.

Trata-se de uma história de amadurecimento, cujo trajeto é reconhecível por muitos, porque já enveredaram por ele. Eu diria, também, que é uma história de amor — entre uma mãe e uma filha; e, também, entre uma garota e sua cidade natal, sendo que aquela, ao olhar para trás, tempo após a lacônica despedida, ou ainda no seio materno, atentou-se às minudências daquele lugar, estimando-o profundamente, por suas poucas virtudes, mas, principalmente, pelos incomensuráveis defeitos. Eis, então, o verdadeiro amor.